domingo, julho 09, 2006


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quinta-feira, fevereiro 16, 2006

A AMÉRICA DO SUL EXISTE, SIM
(http://www.eldeber.com.bo)


Geraldo Magela Matias


A Bolívia está passando por momentos intensos. Sabemos apenas que um cocaleiro é presidente do país vizinho. Recebemos informações através de agências internacionais e, raras vezes, de veículos brasileiros. Somos o continente que mais chama a atenção de pensadores, intelectuais e políticos. Não porque somos exóticos. Mas porque ainda detemos a incrível e sui generis marca de manter em pé um incrível e profundo fosso social entre as elites (classes dominantes) e a patuléia, a "multidão", como insiste Giuseppe Cocco e Antonio Negri em seus Império, e também no Glob(AL), ambos editados e publicados pela Record. Vale a pena tentar conhecer nossos irmãos de continente.
De vez em quando entro no portal do único jornal on line disponível da terra de Evo Morales, a Bolíva. Tem uma "multidão" reivindicando a nacionalização da indústria têxtil bolivina, fechando as fronteiras até mesmo para a China comunista.
O mais interessante é uma nota sobre a Petrobras: Petrobras aclara sus criterios para la inversión - El criterio empresarial prevalecerá en la definición de futuras inversiones de Petrobras en Bolivia, asegura un comunicado oficial de la casa matriz al aclarar que esa modalidad predomina en “todas las decisiones de la compañía”. “No es correcto afirmar que Petrobras invertirá 5.000 millones de dólares en proyectos en Bolivia”, asegura el comunicado al aclarar que el monto se refiere a una suma estimada de las inversiones totales que los nuevos proyectos podrán movilizar siempre que sean “viables”. / ANF. Como andam as transações comerciais entre Petrobras e Bolívia? Temos algum acordo comercial com a Bolívia? A Bolívia representa só derivados de petróleo? Como será a gastronomia, o futebol, a TV. O que pensam eles de nós brasileiros?
Evo Morales segue pressionando o Congresso boliviano por uma nova constituinte. Evo, assim como Lula, não tem maioria no parlamento. Seu partido, o Movimiento Al Socialismo (MAS) briga contra a frente política Poder Democrático Social (Podemos), principal força de oposição a Morales e liderado pelo senador Carlos Borth; outros dois pequenos, o Movimiento Nacionalista Revolucionário (MNR)e o Unidad Nacional (UN) se assemelham aos partidos "mensaleiros" do Brasil.







quarta-feira, fevereiro 15, 2006

"Não sei se você sabe o que é jornalismo. É uma das profissões que hoje estão desaparecendo. Ao jornalista cabe, entre outras funções, relatar os fatos importantes do momento com honestidade e denunciar abusos dos poderosos contra os mais humildes, ou contra o interesse público ou contra a paz entre os povos. É uma profissão que incomoda muito." Bernardo Kucinski
O assunto causa muita polêmica. Bernardo Kucinski é o "arqueólogo do futuro". Para acessar o texto, basta clicar aqui: www. cartamaior. com.br.
Geraldo Magela Matias

MUITOS AVISOS, MUITA FUMAÇA: NIILISMO À VISTA?


Geraldo Magela Matias


O homem que brigou ardentemente com Camus e com Merlau-Ponty, o senhor Jean-Paul Sartre, sempre avisou aos inacautos que a Filosofia não existe - existem, sim, filosofias. Para Camus, o engajamento de Sartre ao marxismo era inútil. Em A Queda, Camus enumera uma série de contradições do existencialismo sartriano. Aquele personagem que inveja o homem primitivo, o homem que não tinha consciência do eterno sem-sentido, pode ser o Sartre panfletando pelas ruas de Paris, se atirando para indicar caminhos e socorrer os inconscientes. Para Camus, "caminhamos ao encontro do amor e do desejo.Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens,tudo o mais nos parece fútil.” Nos atreveremos a apontar o "bem definitivo" e nos alertar do "mal definitivo"? Talvez tenham razões aqueles que afirmam que algumas esquerdas formam uma espécie de religião fundamentalista também, como os fundamentalismos propriamente oriundos das grandes religiões monoteístas. Não adiantará trabalhar a realidade como se fóssemos sujeitos totais do destino da História, tudo pode ser ocasos circunscritos numa esfera imaginária em que nada poderá ser explicado de forma satisfatória? Para Sartre, tudo desaparece. Até mesmo a mais parda das sombras da ciência: a Filosofia. O próprio "Existencialismo" que tem marcas homogêneas com o Budismo. Talvez por isso Camus tenha dita: "eu não creio em Deus, é verdade. Mas nem por isso sou ateu". É um eterno re-construir e, por isso, um eterno amontoado de escombros assombrando as humanidades. Hoje Deus manda pessoas simples entrarem em extase e falarem em "linguas estranhas, de anjos" e expulsar demônios e outras hostes infernais. Mas nada vem do nada. Filosofia, religião, política e ciência são apenas instrumentos escolhidos por grupos que querem o domínio, o poder. Podemos até imaginar que a construção de um socialismo na América Latina não será para sempre, mas não podemos negar que a ausência de soberania, termo que significa potência na escolha de rumos, é usurpada pelo Imperialismo. O problema de Cuba, por exemplo, não é Cuba. É a má-fé disseminada pelos meios de comunicação: Cuba não é "pós-moderna". O problema é que a religião vigente nos EUA prega que o mundo é predestinado, foi feito pronto e acabado e só uns têm a graça soberana de um Deus construído pelo capitalismo na Reforma. O cristianismo protestante e católico mascaram a dura realidade, a dura verdade: somos todos condenados a escolher nossos caminhos. Por isso posso crer em Deus, desde que Ele me tenha como garantia o total livre-arbítrio. Posso até ter a liberdade de afirmar que Deus é substantivo concreto no imaginário humano, mesmo que Ele não seja um ser-em-si. E não há outro caminho senão buscar a liberdade. Sartre dizia que havendo comida, moradia e roupa, teríamos tempo para examinar com mais cuidado a dor implacada na existência: o nada, o absurdo. Mas não poderemos incorrer no erro de instituir as mesmas armas para combater nossos oponentes. Sempre haverá oponentes. Somente a morte irá interromper tais embates. Talvez Camus tenha razão quando filosofou: “Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror”.
Kafka escreveu sobre um muro construído na China. O muro era extenso e fora levantado sobre uma extensa superfície por várias etnias. Ficou pronto com muitas falhas e nem era conhecido por todos. Muro levantado para conter os bárbaros. Mas quando os construtores do muro retornaram para casa, encontraram os bárbaros à frente do centro do poder. Comendo carne crua e mijando na grama. Só nos resta pensar sobre o muro que estamos construindo. Será que conseguiremos frear a imensa volúpia de consumismo? Será que tudo será ordenado para que não haja violência contra oposições? Somos nós os bárbaros? Camus com seu quietismo e Sartre com seu voluntarismo estão mortos. Nós ainda estamos vivos. Mas será que a América Latina existe?

SÓ UM LEMBRETE

Sobre pessoas que não vêem, que não se vêem, que olham para outro lado através uns dos outros. Esperam, planejam sem sair do lugar, até que percebem que não sabem quem está ao seu lado. Estão cegos para a sua própria vida, que continua a passar. E há um corpo que não espera, que é a nossa medida do tempo, do tempo que ja vivemos, do tempo que talvez ainda nos reste.

"Nesta corrida que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte, o corpo guarda as marcas desse avanço irreparável", Albert Camus, O Mito de Sisifo

(Ricardo Pereira)

terça-feira, fevereiro 14, 2006



A Eternidade

Bruno Ribeiro


Eu aprendi a ler muito cedo: aos cinco anos de idade, com os gibis do Lee Flak. À ele devo meu gosto pela literatura e, desconfio, pelo jornalismo. Assim como a gente nunca esquece um bom amigo, nunca me esqueci das histórias do Mandrake e do Fantasma, na época editados pela RGE. Eu tinha a coleção completa! Depois de uma mudança de casa, muitos desses gibis se perderam e até hoje fazem uma falta danada. Enquanto escrevo agora sou capaz de sentir o cheiro inconfundível das páginas daqueles gibis, que ainda não eram feitas com papel de qualidade, como hoje. São recordações tão fortes que me levam a refletir sobre a influência exercida pelos quadrinhos na vida de quem aprendeu a ler soletrando o nome do herói preferido: Fan-tas-ma.
Os adultos tendem a menosprezar seu passado, querendo crer que os mitos da infância são menos importantes do que as suas referências atuais. Não sou desses; para mim, o Fantasma nunca deixou de ter o meu reconhecimento: ensinou-me a ler e a odiar os exploradores, sendo tão importante na minha formação intelectual e moral quanto os filósofos que fui ler anos depois, na universidade. Um dia alguém me perguntou qual era a recordação mais antiga que eu tinha da infância e não precisei pensar muito para responder: as histórias do Fantasma. Antes mesmo que eu soubesse ler, folheava os gibis do mascarado com tal fascínio que nenhum programa de TV era capaz de me ganhar.
Muitos têm a capacidade de guardar de cabeça passagens dos livros que marcaram suas vidas. E as citam, na primeira oportunidade, lembrando que Gregor Samsa acordou certa manhã, transformado num gigantesco inseto, ou que Dom Quixote se arremeteu contra os moinhos de vento, julgando se tratar de gigantes. Gosto de tudo isso também, mas é sempre a história do Fantasma que me vêm à mente quando penso numa passagem inesquecível: "Há 400 anos, um navio de passeio foi atacado por piratas, na costa da Índia. Todos os seus tripulantes foram saqueados e mortos, com exceção do jovem Christofer, que conseguiu escapar à nado e alcançar a selva. Nesse dia ele fez um juramento a si mesmo: dedicar sua vida e a de seus descendentes ao combate ao crime em todas as suas formas, sobretudo crimes de cobiça e opressão. Desde então sua luta tem se transmitido ao longo dos séculos".
Passados quase 25 anos de meu primeiro contato com os gibis do Fantasma, eu consigo enxergar o que sempre me interessou neste personagem: o fato de ele ser eterno, mesmo sendo mortal. Ao deixar sempre ao filho mais velho o legado de sua luta, o "espírito que anda" descobriu a única maneira que o homem dispõe de não morrer: passar adiante o bastão. Há 400 anos transmitindo seus ideais de justiça e paz pelas selvas do mundo, o Fantasma é, de certa forma, o homem comum lutando por uma causa coletiva. É a prova de que heróis não precisam – nem mesmo na ficção – de superpoderes para serem respeitados.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

DEPOIS DE UM MÊS VENDO O AZUL DA JANELA...

Duas possibilidades de acontecimento no meu regresso: ou nada mudou ou tudo está diferente. Uma confissão: quando viajo desligo um pouco o mundo, seguro de que ele continua a funcionar com os seus mecanismos automáticos e de que as estatísticas continuarão a funcionar de acordo com as leis das probabilidades.

Acontece-me quase sempre, porém, fantasiar pequenos terremotos, imaginar que no meu regresso o mundo de onde parti foi abalado de modo irremediável, e que, acontecendo assim, eu não poderei voltar para o conforto do cotidiano igual de onde parti, e terei de me adaptar de novo a tudo. Desejo nunca satisfeito, como se conclui rapidamente, e a verdade é que mais depressa nos adaptamos à mudança do que ao conforto de hábitos antigos, quem o escreveu em tempos nem precisa de ser lembrado aqui. Mas na realidade as marcas de acontecimentos extraordinários na minha vida estão inscritas no tecido regular do tempo, não existem fora dele. Os abalos mínimos dos quais podemos afirmar sem dúvida o local e dia exato onde estávamos quando os presenciamos inscreveram-se na sensaboria do cotidiano e nele se fixaram, nem poderia ser de outra maneira.

De resto, quando me desviei durante alguns dias do percurso previsto, saberia que regressar seria também um gesto de pura banalidade, engolido pela voracidade do tempo, o fenômeno que melhor traduz a impotência do Homem perante aquilo que não compreende. Não devemos portanto empolar a dimensão de certas coisas, antes moldá-las ao desígnio esvaziado de sentido que atribuímos aos dias que correm, indiferentes.

O valor de ser fluindo de forma elástica, incalculável.

(Ricardo Pereira)

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

CAMPINAS CRESCE PARA O CÉU


Geraldo Magela Matias


Não sou especialista em mercado imobiliário. Também não sou geógrafo ou urbanista. Mas li num jornal impresso que a metrópole Campinas está crescendo para o alto, verticalmente. Talvez o Homem-Aranha fique satisfeito, aquele super-herói sarcástico, repórter fotográfico, gênio da ciência, mas nunca foi capaz de conquistar a mulher amada e nem levar muita grana para casa. Cabe aqui ficção, sim. Nada cresce para o céu sem ter uma base, uma pedra ângular que dê segurança à estrutura que rasga o imaginário azul. Lembro a Torre de Babel, construção que desafiou o Deus judaico-cristão por tentar invadir os átrios sagrados. Deus revidou fazendo os homens se confundirem com a instituição de diversos dialetos, línguas e idiomas. Cessou a unidade pecadora com a polifonia desarticuladora.
E novamente os homens, aqui em Campinas, repetem construções para cima, em direção aos céus. Mas embaixo, no topo dessas construções que recebem o nome condomínio as coisas não refletem a paz celestial. Apartamentos apertados, construções que não levam o mínimo trato profissional competente quanto à acústica, ausência de áreas de lazer e proximidade entre vizinhos. Dentro dos condomínios brota a figura do síndico, uma autoridade que tem por missão zelar pela manutenção do silêncio depois das 22h. É ele quem decide tudo. Decide assim porque brasileiro não sabe viver em comunidade, principalmente numa sociedade de massa. Alguns chegam ao absurdo de afirmarem-se Estado dentro desses espaços. Porteiros comentam a vida alheia, sabem de quem os côndomínos recebem correspondências; conheço um síndico que virou corretor de imóveis da noite para o dia. Além de perceber mensalmente seu salário de síndico, usa o condômínio para fazer corretagem e colocar para dentro um perfil de morador: casais sem filhos ou solteiros trabalhadores. O automóvel é o principal vilão: luzes durante a noite inteira iluminando-os, brigas intermináveis entre seus zelosos donos. Passou a ser o único lugar seguro. Às vezes fico observando as ruas nos bairros depois das 22h. Não se vê muito movimento. Viram desertos, áreas de batalhas entre Polícia e bandidagem. A instituição de uma moral, de uma sub-constituição dentro dos condomínios é clara, ou melhor, uma sub-cultura. Ninguém conhece ninguém. Ninguém fala a mesma língua. E no pequeno espaço chamado condomínio é perceptível os avanços da corrupção: superfaturamento, negociação espúria entre donos de garagem e síndico, até mesmo, fiquei sabendo, grampo telefônico para certificarem se o "sujeito estranho" que começou a morar no prédio é mal caráter ou não. A população desses espaços não gostam de participar de reuniões, não estão nem aí quanto aos gastos e administração do dinheiro resultante das taxas pagas aos cofres do sub-Estado.
Mas não vou ousar escrever sobre Aeroporto Industrial, ocupação irregular do solo, falta de infra-estrutura, financiamento público de moradia, déficit habitacional. O que eu queria, de verdade, era pegar um vôo para uma praia distante e poder gritar, pular e viver em paz como se vive um céu: com mar azul e a areia branca e uma casa com quintal. Sem saber que tem gente feliz pelo fato de a insegurança pública ser comemorada pelos donos de empresas de segurança privada que ganham dinheiros a rodo nesses condomínios. Curiosamente, dizem as más línguas, são funcionários públicos responsáveis pela segurança pública.

domingo, fevereiro 05, 2006

LIMBO

Geraldo Magela Matias


A indagação mais inteligente, no final da ditadura militar, foi lançada por Elis Regina: "e daí?". A resposta lhe foi dada pelo pessoal da esquerda que chegou, depois de uma marcha em direção ao planalto central do país, surfando na onda vermelha do PCdoB, PSB e PT. Há muito tempo deixei de julgar, escolher e avaliar usando a ditadura como referência: nem tudo que a ditadura proibiu era bom. Nem mesmo devemos criar mitos eternos - isso é tarefa para religiosos fanáticos e fundamentalistas. Nem tão louvável é sair bombardeando fenômenos e movimentos em diversas áreas da vida simplesmente porque sou um clichê de niilismo ambulante.
Lembro-me quando Fernando Henrique era considerado um intelectual que oferecia riscos ao sistema capitalista selvagem implantado no Brasil. Houve apenas um marcatismo paranóico muito amplo, implantado a ferro e fogo. E não aconselho ninguém cair nessa onda "verde e amarela" do patriotismo positivista. Não vou babar a gosma da ingenuidade da fidelidade ao "socialismo" do PT. Vou até concordar em alguns pontos com o Diego Mainardi e, por discordar, não vou sair por aí exigindo sua cabeça. Não vou defender piamente que Fidel nunca ousou abandonar Che nas matas bolivianas, mas não vou me dar ao luxo do simplismo ideológico de direita acusando o socialismo real de engendrar planos tenebrosos de genocídios. Tanto capitalismo como socialismo real mataram milhões de pessoas.
Em verdade, necessitamos respirar. Tomar um ar. Tudo necessita ser debatido dentro da liberdade real de expressão. Por exemplo, acabaram de deletar um texto meu do blog, o Mineirotauro, por isso não vou sair por aí cuspindo fogos e pregos. Tudo bem. Típico de gente distraída. Pode ter sido por mero engano. Mas, parafraseando o maior ídolo do meu amigo André, Bob Dylan: "nenhum texto deletado deterá o mundo".
P.S.: gosto de qualquer marca de cerveja.


Da série "Geraldianas"
bruno ribeiro

Mais um escrito do Geraldão, localizado no limbo da pasta verde. Um texto rabiscado à mão, numa folha de caderno. Datado de 1996.

Tropicanalhas

Tropicalismo é fantasia recheada de clichês da possível “realidade” brasileira; alerto os dinossauros saudosistas que tenho pouca admiração pelo Vandré. O primeiro atracou-se no bom papo do pseudo-mulato FFHHCC, o segundo... bem, não sou expert em tratamento psicanalítico para traumas pós-pau-de-arara – puxa, arara e tucano me lembram estética tropicalista. Pretendo não tocar no assunto relativizando-o com a ditadura. Afinal, se o Caetano Velloso e Gil não fossem cuspidos para Londres, haveríamos de vê-los todos os finais de ano – nas noites de “quase-dezembro” – sentindo tesão na Globo pelo contato com o Rei que descobriu o Verde e o Amarelo quando o ACDC fazia sucesso geral mostrando a bunda para a juventude brasileira.


BOBAGENS

Geraldo Magela Matias


Não vou me atirar em prantos no pescoço de um cavalo açoitado por um cocheiro como fez Nietzsche. Ele, Nietzsche, chorou copiosamente no colo da irmã Elizabeth. Talvez ele tenha herdado do pai, pastor luterano, as anomalias no cerébro. Mas louco ele não foi quando publicou seus livros. Até mesmo Zaratustra foi escrito para ser letra de composição musical. O filósofo que usou a pobre escrava da literatura morreu batendo a cabeça nas paredes, mas antes quebrou mitos e inventou a roda do eterno retorno.
Mas vamos deixar de bobagens. Estou ficando velho, estou ultrapassando a barreira da vulgaridade. Nada nos é trazido, todos os dias, depois de intensos debates. Quem poderia adivinhar que o maior partido de "esquerda" da América Latina iria fazer um pacto com a Igreja Neopentecostal, a Igreja Universal do Reino de Deus? Edir Macedo, o papa da Igreja (não vou ser idiota de chamar os negócios do Edir de "seita") sempre aliou sua própera estrutura teológica aos interesses neoliberais trazidos pelos ventos da "modernidade" no Brasil. Bobagens, deixemos para lá! Se você resolver cortar as orelhas como Van Gogh, nunca espere repetir a arte pictorial do holandês maluco, esquizofrênico. No Brasil não há necessidade de cortar orelhas, pulsos e se atracar no pescoço de um cavalo. Já não ha necessidade que ninguém me tente convencer de que existem diferenças entre loucura, ilusão, realidade e fantasia. Sou brasileiro.
Mas tenho uma certeza, eu, que sempre fui tratado como o "louco de estimação", o "amigo bizarro", possuo em minha caixa de ferramentas o improviso. Ultrapassamos a barreira das inovações, deletamos paradigmas, apagamos éticas e achamos que o mundo estaria no "fim da história". Bobagens. Até mesmo a arte assimilou essas bobagens vulgares: tudo derrete nos museus, tudo é provisório. É o niilismo que a literatura russa iria rir, chorar, babar de gargalhar.
Por isso tudo, convido aos leitores desse escriba que escreve, desse "louco de estimação", desse cidadão que ouve e fala besteiras, não tenham Marx como conselheiro no toclante ao combate de idéias. Tenham Hegel como companhia: combatam, matem, aniquilem as idéias de seus opositores. Humilhem, sacaneiem, falem mal dos vossos algozes. Mas, encarecidamente, por favor, vamos fazer tudo isso num bar. Um boa cerveja, belas mulheres. Sem querer cometer a violência de oprimir o outro com gostos e preferências. Até porque tudo nos leva ao nada. "Eis o sentido da vida: ela tem fim", afirma Albert Camus, o cara que arrebentou com o voluntarismo e o marxismo de Sartre. E daí? Bem, não tenhamos em mente a loucura de acreditar em homens e mulheres que mamam nas tetas do Estado buruguês, que vivem da mediocridade, que são os "comunas de estimação" dos "bons burgueses". Acreditar em quem? Somos todos humanos, demasiado humanos. Por isso convoco o mesmo espírito que trabalhou a mente de Epicuro para habitar entre nós: sejamos felizes, com boa cerveja, vinho, mulheres (e elas com seus lindos homens).
P.S.: gosto de qualquer cerveja.