Quinta-feira, Janeiro 26, 2006


BATISMO ANIMAL

Geraldo Matias


Sempre gostei de ler o que o prezado Fausto Wolff escreve. E ele escrevia e ainda escreve com a mão esquerda. Metáfora, pura metáfora pura. Wolff é um herege e sinto raiva dele, só por um motivo: ele é um herege que tem o púlpito midiático aos seus caprichos e verborragias. Dias atrás alguém me perguntou sobre o Wolff e disse que nunca o vi pessoalmente; nem pretendo. Entendo que basta saber que ele é um velho comunista que nem simulacro é em minha mente. Nem como ídolo posso permitir.
Rir foi meu primeiro reflexo da leitura de um texto dele no famigerado Jornal do Brasil. Ele conta a história de uma cabocla que pretendia batizar seu rebento. Vento na cara, imagino, ela deve ter procurado a capela com as próprias pernas. Eternas injustiças: o padre cobrou a graça, que segundo o Nazereno deveria ser de graça: "de graça recebestes, de graça dai". Nem tentem levar essa sentença para dentro de um prostíbulo, já basta a Igreja ficar sabendo dessas coisas.
Pois bem, ela procurou o pai do Wolff. E que magnífico, o pai do escriba da mão esquerda ficou irritado. Levou a cabocla até a capela e pagou pelo batismo. E vejam só a pura fé da heresia: "com a ajuda de um rifle, obrigou o padre a batizar seu burro".
Me lembrei quando surrupiava da coleta para dar a uma família que passava dificuldades. É interessante como as práticas religiosas demagógicas confundem os habitantes do imenso Brazil do Padre Cícero. Jesus Cristo permitiu que seus discípulos invadissem um milharal, em pleno sábado e ouviu dos detentores da Voz do Senhor: "ei, hoje é sábado, é sacrilégio". Que nada, o Mestre Carpinteiro logo atirou o primeiro tiro: "o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado". Somos sujeitos e não objetos das coisas, somos seres pensantes. O pior demônio que pode atacar uma sociedade é a coisificação.
E por falar em burro, lembro-me de Campinas. Sem querer insultar aqueles que acham que Francisco de Assis era "protetor de animais". Conheço cristãos que gastam uma grana com cães. Conheço gente que paga mensalidade para manter túmulo de cachorro. Leva para o hotel quando vai viajar. Nem aquele rock sensibiliza mais os campineiros: "troque seu cachorro por uma criança pobre". As pessoas estão humanizando os cães porque sentem nojo do outro, do vizinho, do colega de trabalho. Ninguém confia em ninguém. Raso, simples, mas profundo: individualização máxima. E o tolo Budismo ainda vem afirmar que os espíritos confusos quando desencarnam podem ficar perdidos e ocupar corpos de animais, como os cães. Acho que espíritos de porcos habitam corpos de gente que beija cachorro, compra roupinha de frio, conversa, mima e mantém um cardápio de alto padrão para o bicho.
No caso do pai do Wolff houve afronta ao clero e sua petulância de mercadejar as coisas do Sagrado. Batizar um burro significou constestação, semelhante ao ato irado de Jesus em chibatear os sacanas dos farizeus e escribas que obrigavam o povão a comprar pombas e ovelhas só na porta do templo. Superfaturavam os bichos e ainda proibiam a plebe de entrar com animais que não tivessem a marca do Sinédrio.