
BRASIL: BUNDA
Geraldo Matias
O mineiro Carlos Drumond de Andrade não negou ao incrível mundo da poesia o direito da bunda fazer parte do seu léxico. Outro mineiro, o Ziraldo, tutor do Menino Maluquinho, fundou uma revista chamada Bundas. A revista quebrou, mas a bunda continua como símbolo perpétuo de uma nação com nome de mercadoria: Brasil. E bunda também foi elevada ao plano da reificação, só faltando instituir o título de commoditie. Até porque a bunda brasileira é um produto "in natura", aprimoramento da evolução natural. Nem pretendo fazer piada com a bunda brasileira afirmando que, de tanto levar estocadas, ela ficou deitada em berço esplêndido assinalando sua força no genoma da cultura tupiniquim. É a lei do uso efetivo.
Drumond foi poético. Fico imaginando como ele, um funcionário público, mirrado e sistemático ousou: "Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. A bunda se diverte por conta própria. E ama. A bunda são duas luas gêmeas". De fato, a bunda diverte-se até mesmo na exposição fascista do Carnaval Carioca. Enquanto uma elite é bancada por cervejarias e marcas famosas, abrigando no andar superior da Marques de Sapucaí até mesmo presidente que anda com mulher sem calçinhas rendadas porque a dona de bunda é prendada, a patuléia passa para animar o lado "popular" da festa que lembra Mussoline.
São bundas amarelas, brancas, pretas, à mostra ou subliminarmente destacadas para alimentar e provocar o libido de rapazes, que, segundo Drumond, "não entendem nada" do assunto. E é assunto profundo que exige canalização de toda a inteligência de freudianos e antropólogos de plantão. Em meio aos debates acalorados, ouvi marmanjos bradarem am alta voz, firmes como bundinhas de ninfetas: "ao invés daquele globo no pendão brasileiro teríamos que ter a bunda, no centro a estrela representando o Distrito Federal e nos lados esquerdo e direito as que representam os estados". Aceito a metáfora da estrela que representa o Distrito Federal. Mas e a faixa do positivismo, onde ficará o slogan "Ordem e Progresso"? É incrível como o brasileiro encontra saídas. E é no canal de saída que julgamos radicalmente a beleza das mulheres brasileiras?
E vamos ver bundas brasileiras desfilando na Alemanha. Tem Copa do Mundo no Velho Mundo. Em ritmo de pagode de quinta ou sob a maestria do Zeca Pagodinho os jogadores do escrete carnarinho nikiano vão poder contar com seus gols na mídia, cheios de efeito especial, com rubrica e tudo. E é bunda vibrando. É bunda saltando. É bunda requebrando. Mas a minha teoria, grosso modo, afirma que bunda brasileira foi desenhada durante séculos de miséria e de fome. Brasileiro levou, leva e levará ainda muito na bunda. E Darwin poderia estar vivinho da silva para tentar desvendar o mistério da natureza bondosa com essa gente tupiniquim. Bem em cima da hora, Charles Darwin iria acompanhar político com cara de bunda pedindo voto. Futebol e eleição no Brasil é como feijoada, queijo com goiabada, farinha com rapadura. Dá um cagaço da moléstia. E caixa 2 é uma espécie de parte traseira, obscura de qualquer empreendimento brasileiro. E a vida continuará ruim. Mas a bunda do Brasil será a mesma para o capitalismo selvagem, devorador cruel de tudo que vê pela frente, impiedoso, insensível ao escutar gemidos de dor. Interessante é que a pátria mãe gentil e tão distraída está sempre de bunda para o ar.

2 Comments:
Geraldão, maravilha o teu texto. Só a bunda não é trágica. Só a bunda está sempre sorrindo. Valeu! (Bruno Ribeiro)
Excelente analogia!
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