
CRIANÇA
Geraldo Magela
A vertigem está me levando agora, não posso falar sobre ela porque ainda não sei ao certo que pergunta devo fazer, não me interessa respostas. Quero as perguntas certas. E no meio desse passeio vertiginoso encontrei o Ricardo com sua postura existencialista e filosófica. Ele me fez lembrar Nietzsche afirmando: "todo filósofo é uma criança". Nossas indagações fazem lembrar crianças perguntando o que há depois do fim do universo. Meu filho me afirmou ano passado que cada ser humano é uma galáxia cheia de estrelas e vazia de soluções. Apontou para a minha estante: Victor Hugo, Nietzsche, Camus, Sartre, Platão, Marx, Cervantes, Joice, Drumond, Guimarães Rosa... olhou para os meus olhos e disse: "meu pai é um maluco-criança". Ele tem 15 anos, eu tenho 43. Já conversamos até sobre as institutas de Calvino e Santo Agostinho. Ele já segurou minha mão num dia de trevas e me aconselhou a continuar levando minha nau por águas que sempre navaguei. Doce jeito carinhoso de persuadir. Nunca entrou numa sala para estudar Lógica. Nem mesmo sabe que Sócrates era um ditador que se fez de vítima tomando sicuta.
Todas as vezes que entro numa livraria ou numa biblioteca fico angustiado. Não encontro a pergunta correta, exata, perfeita. Há milhares de visões. Um dia, depois de comprar uns livros, me deparei com uma menina de uns 9 anos me pedindo moedas. O cabelinho ralo, loiro, os dedinhos sujos. Abaixei meu corpo e a suspendi. Depois a desci. Vi Arnaldo Antunes bem na minha cara dizendo que até Hitler foi criança. Olhei ao redor e vi uma mulher aflita, com os braços cruzados protegendo o peito. Deixei a criança e fui até ela. Era a mãe da menininha de cabelos ralos. Entreguei uma nota de R$ 50,00 à genitora. Ela sorriu e ficou agradecida. Me lembrei de Camus e seu livro A Queda. Naquele instante caí porque sempre combati a filantropia, o egoísmo travestido de amor, a esquizofrenia de consumir a miséria e depois propagar a bondade. Me senti um covarde.
E hoje pela manhã fui desafiado. Não pelo texto do Ricardo, que foi uma espécie de endosso. Preciso ir. Não posso mais postergar minha carreira: ser gauche na vida. Amar o que de fato quero amar. Eu me escolhi essa amanhã. Depois de tantos anos senti uma vertigem: "somos condenados à liberdade". Encontrei alguém que pode ser a pergunta para tudo que li, vivi e sonhei, e experimentei: Tais: aquela que deve ser contemplada e jamais deixa transparecer suas fraquezas. Prefere encarar os problemas sozinha a ter de partilhar sua dor. Costuma ter boas idéias, a maioria audaciosa. Suas reservas de emergência não a deixam na mão. Sempre busco significados. As palavras criam mundos. Mas acho que nomes de pessoas não revelam praticamente nada sobre elas. Nem os tratados filosóficos, nem as fogueiras vaidosas da literatura, do cinema, do teatro são capazes de revelar. Aliás, profetas revelam, mas profecia nunca fala do futuro, apenas desvenda o óbvio. E quero ser óbvio. O ocaso jogou no meu jardim uma semente que me deixou atônito, curioso, sentindo vertigens. Até mesmo vou ter que ficar ouvindo Beatles. Tudo simples. Quero tudo simples.
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1 Comments:
Não sei o que você quis dizer com vertigem por seguir teu caminho. Parece bonito, mas não sei se é.
Quer dizer que vai escrever teu livro? Que vai parar de brigar com o destino? Que vai aquietar a alma nuns olhos e mãos e pernas que te dêem firmeza sob os pés?
Não sei o que queria dizer, o que quis dizer, o quer dizer... Vertigem? Não sei mesmo.
Arrisco um palpite. Você não precisa da resposta. O que te alimenta é a busca.
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