Quinta-feira, Janeiro 26, 2006


De volta para casa (um poema para ser lido de madrugada)
André Montanhér

Rolo na cama e decido encarar com coragem mais uma madrugada acordado. Meus fiéis escudeiros Raskolnikov e Roberto Justus me acompanham, cada qual um extremo que vez ou outra se digladiam pelo controle do meu ser. A reviração na maldita cama ardente me irrita, e tem certas horas que a gente mesmo atormentado por fantasmas terríveis acaba de saco cheio e mandando eles para putaqueopariu.
Foi o que eu fiz. Sento à beira do computador e olho a tela em branco de um arquivo em branco de Word. Parece querer que eu escreva. Antes de ter este blog eu ficava pensando muito sobre o que se faria do meu escrito, mas hoje em dia talvez eu nem dê a mínima mais, porque escrever é vomitar também. Preciso vomitar, para que meus amigos comam o meu vômito.
O caralho é que uma imagem surreal me aparece do outro lado da tela, e é o maldito Mestre dos Magos...lembram? Daquele desenho: A Caverna do Dragão. Ele diz:
- Vim substituir teus demônios. Tua idade já avança demais, e já te tornastes demasiado complexo para eles.
- Como...se não decidi a questão deles? A cada dia eles trocam de lugar com maior freqüência. Esta semana consegui travar diálogos mais regulares com o Raskolnikov, sempre numa mesa de bar e em tom de pura auto-destruição. Mas por outro lado aguardo respostas de emprego, e o Justos já deve estar a caminho...
- E tu pensas que vamos esperar até quando? Não pensas que não descobrimos que era tudo embromação o teu envolvimento com a maldita política? Já se vai o tempo em que perdoávamos teus disparates de adolescente.
- Eu fracassei, porra. É isso que vocês estão dizendo? Nem alma de poeta e nem profissional do mercado bem colocado?
- Nem ao menos um cara esperto. Tudo estava diante do teu nariz.
- E quem serão agora teus demônios?
- Bem...temos visto que tu agora te ocupas de questões espirituais. De modo que te apresento a Morte e a Culpa, para te acompanharem dia após dia.
- Prazer, prazer. Que legal...abstrato assim fico mais tranqüilo.
- Isso porque ainda não tem câncer e porque tua família é italiana, que fala merda gritando o tempo todo, xingando-se uns aos outros como quem reza uma Ave Maria.
- Benditos italianos e seu gestual de Dom Corleone.
- Mas não penses que acabou. E não penses que não sabemos que estás de namoradinha...
- Deixe a Carol fora dessa, seu filho da puta!!!
- Deixa-la fora? HAHAHAHA. Seja bem vinda ao show, gatinha.
- Oi André.
- Caralho...eles te prenderam. Fuja!!! Fuja enquanto eu chuto esse anão cabeludo com cara de Severino Cavalcanti!!!
- Como fugir, André? Sou teu mais novo demônio...A FAMÍLIA!!! Aliás, estamos precisando de dinheiro para as compras...Tu não vai se arrumar não, homem?
- Mas Carol...mal tenho para a minha cachaça desse fim de semana.
- Bons tempos os do namoro não é André...pena que acabam, e como num pesadelo mortal você está rodeado de filhos remelentos e cagados.
- Malditos sejam!!! Como querem que eu cresça, me desenvolva, com esses demônios? Até a Carol, que eu tanto amo, vocês transformaram num fardo!!! Eu sou budista, seus canalhas, eu prego o desapego!!! Vocês não podem me pressionar!!!
- E você acha que alguém aqui é idiota de acreditar nisso André? De Buda você não tem porra nenhuma, que eu sei.
- E por acaso alguém por aí faz juz à religião que segue?
- E você acha que é o único a ter demônios?
Curvei-me no chão, extenuado daquela refrega verbal. Estava entregue à minha própria sorte, e lágrimas começaram a brotar dos meus olhos.
- Mestre dos Magos...sei muito bem que a questão não é ética. Aliás, isto é justo? Sou um cara do bem...com vícios bem naturais...mas nunca fiz mal a nenhum filho da puta que respira sobre a terra!!! Sou um merda, sim, profissional, técnica, cientificamente um merda...mas que culpa tenho eu?
- Estou tão comovido que quase começo a chorar...Chupa minha rola aqui, chorão!!!
Era um maldito pesadelo, que saía do computador e invadia a minha vida. Naquele momento, a única coisa que queria era matar aquele anão de jardim...que aliás, agora lembrava, havia escolhido como imagem do meu deus/diabo porque guardava a chave para a minha volta para casa. Voltar para casa, era o que eu mais queria naquele momento. Voltar para casa...minha casa.
E quando voltarei? Quando chegarei finalmente à minha casa?
Vou tentar dormir agora, pois tomei um bom gole de pinga. Bons sonhos, meus amigos.

2 Comments:

At 5:40 PM, Blogger Bruno Ribeiro said...

Excelente roteiro underground para desenho animado. Texto sob intenso fogo cruzado: existencialismo x niilismo. O Mago é a grande metáfora. O sacana nunca tinha desejo de liberar os meninos daquele mundo dadaísta. Mas acabei achando que aqueles guris deveriam ficar por lá mesmo. Você já os imaginou voltando à "realidade" e correndo em direção a uma lojinha do MacDonald?

Geraldo Magela

 
At 11:56 AM, Blogger Márcia Nestardo said...

Porra André!!!
Não passei nem uma semana fora e a primeira coisa que sinto quando venho visitar o blog é esse cheiro azedo?
Lembra daqueles comprimidinhos de SOMA do profeta Aldous Huxley? Hoje eles têm nomes diferentes... não, não... Enganado quem pensa em cocaína ou maconha. E vamos deixar a cachaça fora da conversa... Estou falando de fé. Não a religiosa, mas a dos consultores de grandes empresas, ou livrinhos de auto-ajuda. Crença de que se fizermos tudo certo, tudo tem que ficar bem. Balela.

Aí vem à mente aquele puta palavrão, proibido pras criancinhas e que enche a boca de toda gente como uma hóstia reveladora: LIBERDADE!

Fiquei curiosa, espiei, abri... Sabe o que eu achei do outro lado da porta? Uma leve sensação de ridículo... A resposta não estava ali,... se é que existe uma.

 

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