Impressões do peixe
bruno ribeiro
Quando chove, também se abate sobre mim a nostalgia. Talvez porque o cheiro de terra molhada evoque recordações rurais, de um tempo em que íamos -meu pai e eu- pescar às margens de um rio poluído, numa cidadezinha do interior paulista. Ficávamos invariavelmente mudos, um ao lado do outro, com suas respectivas varas de pesca em punho e seus mundos opostos. Meu lugar cativo era sobre um pneu de caminhão, que alguém colocara numa base de cimento na beira do rio. Meu pai sentava-se um metro à direita, numa almofada verde-escura de plástico que trazia consigo, com o eterno cigarro semi-apagado (ou semi-aceso) pendendo num canto da boca. Para chegarmos ao píer, tínhamos de atravessar uma estreita e frágil ponte feita de madeira e bambu. Quando menino, a travessia na ponte parecia não ter fim. Transpor a ponte e chegar são e salvo ao píer era uma epopéia. Depois, já adulto, percebi o quanto a ponte era ridícula. Não tinha dois metros de extensão. E nunca ruiu. Deve estar lá até hoje, carcomida pelo tempo e pelo detergente que a multinacional do lugar deixou no rio. Na chuva, a memória fica úmida e nos traz reminiscências ao sabor do mormaço. É intrigante como as lembranças mais nítidas geralmente vêm dos rincões obscuros do cérebro, fragmentos de pequenas coisas aparentemente insignificantes no momento em que aconteceram, mas que se instalaram como vírus em nosso código genético. Um vaso de flor que tínhamos em casa, quebrado numa brincadeira de mocinho e bandido. Eu sempre gostei mais de ser o bandido; naturalmente acusaram a mim e não a meu primo, quando deram pelos cacos sob o tapete. Um peixe que fisgamos por pura sorte. Lembro de um peixe que fisguei e que dentro desse peixe havia uma medalhinha de nossa senhora aparecida. Guardo até hoje essa medalha, encontrada dentro do peixe, ainda que eu seja ateu, ateuzinho da silva. Guardo, como o peixe guardava a santa, tantas coisas absurdas dentro de mim. Guardo, hoje, uma vontade de chorar e não ter como. Não sinto medo do futuro, nem desejo retornar ao passado. Sinto apenas um profundo tédio do presente e uma saudade inocente de tudo.
Terça-feira, Janeiro 31, 2006
reminiscências, poemas e utopias de Bruno Ribeiro, Ricardo Pereira, Geraldo Magela e Caio Vaz Guimarães
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5 Comments:
Perfeito, Bruno. Dessas crônicas que a gente gostaria de ver nos jornais e não vê mais. Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era. A descrição da ponte foi literatura pura, esta transição que o tempo faz do olhar da criança para o olhar do adulto foi genial, da epopéia ao ridículo, sem perder a poesia. É isto que devia constar no livro da nossa vida. Ricardo
Lindo, Bruno... para ler e acalmar meu furor provocado pelos fantasmas do Camus, do Nietzsche, do Gláuber, do Sartre...
Um simples peixe... como Jonas... preso dentro da baleia... simplesmente porque negou tudo...
Geraldo
Belíssimo texto. Não consegui encontrar nada que pudesse criticar, já que me identifiquei muito com seus argumentos e idéias. Depois de várias décadas vividas, até me fez lembrar de quando eu também ia pescar com meu pai. Parabéns pelo texto e []'s
Obrigada novamente, Bruno.
Sinto-me em casa.
Lindo...
Canalha, EU queria ter escrito este texto. Por vezes também me invade a melancolia do passado, inscrita em detalhes do cotidiano que se revelam aos olhos como insights poderosos para uma poesia. Tive saudade do teu passado, lendo o texto. André Montanhér.
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