Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

Não tenho dúvidas que o amor que o Homem ganhou aos livros descende das noites passadas em cavernas escuras contando histórias à volta de um fogo lentamente apagando-se, exorcizando espíritos e mortes e medos. O registo escrito é outra forma das histórias sobreviverem. Mas é tão incerto como os contos passados de geração em geração, e deles sempre dependente.

Os primeiros livros da civilização ocidental, a Ilíada e a Odisseia, são o testemunho de relatos anteriores, e grande parte da sua importância aí reside. Mas quem sabe o que se perdeu com a transcrição para a linguagem escrita? O exercício de distorção e construção que a transmissão oral permite perdeu-se com a fixação do texto, formatou o pensamento do leitor. Mas não fechou as portas ao espírito humano.

Quase três mil anos depois, continuam-se a escrever inúmeros livros que ainda tentam compreender na totalidade a mensagem transmitida nos textos homéricos. Mas estão tão longe (ou tão perto) como as interpretações que Aristóteles fez apenas duzentos anos depois. Cada novo tomo surgido apenas multiplica pontos de vista, contribui com mais um tijolo para o edifício que tem crescido a partir dos alicerces originais legados quem sabe por que escritor apócrifo.

Somemos agora apenas estes dois livros e os milhares que se seguiram em torno deles aos milhares que se escreveram e perderam, e reencontraram, ao conjunto de todas as obras importantes (esqueçamos aquelas que não merecem o estatuto de literatura) alguma vez escritas e obteremos aquilo que se pode assemelhar a uma biblioteca infinita, como a de Borges, uma biblioteca com corpo de cidade onde as ruas desembocam em espelhos que duplicam imagens dentro de espelhos, ruas sem sinais numa cidade sem mapa onde invariavelmente acabamos por nos perder. Em algum lugar, perdido neste labirinto de ruas, becos, avenidas, ainda temos o Homem que, à luz de uma fogueira que morre, tenta, com o esforço das palavras que ainda faltam, relatar a caçada onde quase foi caçado. E os outros que, presos no abismo das múltiplas figurações do mundo, mergulham lentamente na História. (Ricardo Pereira)

4 Comments:

At 6:35 AM, Blogger Ivo Korytowski said...

Obrigado por visitarem meu blog e deixarem uma mensagem simpática lá. E parabéns pelo blog de vocês!!! Incluí nos meus favoritos.

 
At 7:19 AM, Blogger CrisLynJoplin said...

Nossa, será que é muito pra minha cabeça. Nunca me atrevi a ler nenhum destes dois classicos dos classicos mais classicos da literatura universal. MAs uma coisa a sabedoria popular já me ensinou. Cada conto aumenta um ponto..
Essim por diante. Minha professoras de linguistica me ensinou que a lingua falada possui simbolos diferentes da escrita, que é mto mais complicada para dar conta de todos os poréns da lingua falada... Mas iso já é outro papo né!
=]

 
At 8:52 AM, Blogger Bruno Ribeiro said...

Valeu, Ricardo. Seu texto me achou. Dura vida de quem não tem a pergunta certa. Mas tem milhares de respostas trafegando como fantasmas em nossas vidas.

Geraldo

 
At 12:18 PM, Blogger Márcia Nestardo said...

Sou uma pessoa compulsiva. Comidas, bebidas, roupas, taras, idéias, pessoas, aventuras e medos. Não importa.
Meu objeto de desejo, meu vício particular muda de tempos em tempos. Uma evolução cíclica querendo virar espiral.
Uma mania que não perco, e que se mistura com as outras patologias, é de ler livros. Tenho pequenas pilhas a minha espera, uma lista maior dentro da carteira, e ainda vivo pedindo indicações pros outros, para saber o que posso levar de cada um junto comigo.
Quer saber... Perdidíssima nas ruas da tua cidade, quase me acalmei... Mas eu sei que o barato dura pouco e logo vou ter que procurar outra dose.
Posso te abraçar?

 

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