
PREDESTINAÇÃO
Geraldo Matias
No filme "Cidade de Deus" a violência não é apontada como causa da miséria e da exclusão social. As únicas vidas que são poupadas: uma galinha e um negro que consegue firmar-se com repórter fotográfico de um jornal. Fruto do deslocamento da colagem do darwinismo cientítico para o social, afirmam por aí que tudo é karma, destino traçado por um Ser Superior antes da fundação do tudo, do mundo. Uns irão ser agraciados com bens e prestígio por serem salvos pela Graça, pela vontade exclusiva de um Deus. Dizem por aí que cineasta não tem compromisso com a realidade e nem é obrigado a tornar-se um arauto de alguma verdade amiga de alguma ideologia. Cinema é pura magia.
São lá das bandas da Inglaterra, país que sediou lutas sangrentas durante a Reforma Protestante, os homens que se julgam predestinados afirmam: o Brasil vai levar 304 anos para atingir o mesmo nível de distribuição de renda dos países desenvolvidos. E que os mais pobres do mundo tiveram uma queda de 73% na participação da divisão da mufunfa. E para piorar a situação da patuléia, os caras que sempre travaram uma luta secular contra o IRA, o velho Exército Irlandes, dizem que os problemas ambientais estão atingindo os mais pobres.
É interessante como esses ingleses julgam ser "senhores do tempo e dos destinos". Calculam até mesmo o tempo em que o Poderoso Senhor da Criação irá conceder alívio aos desgraçados. Mas Deus bateu as botas há muito tempo. Nem mesmo o Deus de Lutero e Calvino manda por lá. Mas o paradigma continua o mesmo: predestinação. E o que mais se lê por lá? Paulo Coelho. Prática livre da wicca. Paganismo. E na onda dessas vertentes religiosas tudo acontece como num passe de mágica. Você é seu pastor, ninguém manda, você não obedece ninguém. Siga sua intuição. Pronto, o sistema econômico elegeu uma outra teologia para justificar as desgraças que caem sobre milhões de famintos. O paganismo fora varrido da Europa pela mão forte de capitalistas que queriam um sistema que fornecesse ética para explicar tudo.
Deus não estava morto. Deus ainda vive. E vive sob a luz eterna do Iluminismo: o capitalismo não pode cessar suas atividades. Portanto Deus não pode morrer. A suprema criação humana mudou de máscara, de roupagem. Ao invés do cajado de Moisés, a vassoura de uma bruxa; vejam como as mulheres são exploradas pelo capitalismo e chamam isso de "emancipação". Ao invés do sopro do Espírito Santo, o bafo de um mago que faz ventar. Ao invés do púlpito, a mídia.
Tudo agora é descartável, inconstante. Não considere o passado, não pense no futuro, mergulhe no presente: eis o código de ética apregoado ao rebanho. Não pense em motivos que deixam as pessoas entediadas. Ninguém quer saber os motivos que causam a desgraça. Mas os bruxos, bruxas, magos e videntes estão por aí. Até mesmo na literatura, no cinema, no jornalismo. Até mesmo no sexo.

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