
Vamos falar sobre Cuba?
Bruno Ribeiro
É engraçado. Por que Cuba ainda continua gerando tanta polêmica? E por que em torno dela ainda se continua produzindo tanta mentira na imprensa? Cuba surgiu em minha vida como conseqüência de meu interesse por política. Quando eu era menino, ouvia meu pai - que era militar - dizer que Cuba era um lugar horrível, onde as pessoas eram miseráveis e não tinham liberdade para nada. Se você quisesse, por exemplo, fazer uma viagem de férias com a família: isso não permitiam ao cubano, porque o governo controlava tudo, inclusive a vida pessoal do infeliz. O ditador Fidel Castro não queria que as pessoas viajassem para outros países porque dessa forma iriam ver que havia liberdade, que havia outra realidade, que havia dinheiro de sobra para fazer o que desse na telha. Claro: em Cuba todas as informações eram controladas, para que ninguém pudesse saber disso. O cubano, coitado, era um povo alienado e triste. E aquele mais esperto, o que se rebelava contra essa situação escabrosa, iria direto para a prisão ou então, barbaridade, para o paredão, onde era executado para servir de exemplo. Cuba, Cuba, Cuba. Meu deus, será possível existir no mundo um país tão cruel para seus próprios filhos? Não sei como, nem quando, mas decidi que iria tirar essa dúvida um dia. Decidi não acreditar só no que meu pai me contava, nem nos livros e jornais que ele me mandava ler. E comecei a me informar por outros meios, a conversar com cubanos através de cartas (naquele tempo não existia e-mail ainda) etc. Um dia resolvi ir para Cuba. Juntei minhas economias e desembarquei em Havana, onde não encontrei um só menino de rua ou uma só favela. Em Cuba pode não haver ricos, mas também não há pobres. A violência atinge níveis ínfimos, não há analfabetismo e quase todos os serviços básicos são gratuitos para a população. Ora, não se trata de um mundo perfeito. Em Cuba as coisas são difíceis! O bloqueio torna tudo ainda mais complicado: faltam sabonetes, sapatos, papel para livros, absorvente íntimo, creme dental, comprimidos para dor de cabeça, peças para computador, componentes eletrônicos. Mas depois que a gente entende que boa parte desta carência é resultado de uma lei absurda e criminosa, então só temos de admirar a ilha: que outro país do mundo resistiria bravamente há tantos anos de bloqueio? Quando eu era criança o mundo ainda era bipolarizado, havia a guerra fria, o socialismo de um lado, o capitalismo de outro. Mas depois - não é isso o que dizem agora? - isso tudo acabou. Agora o mundo é globalizado, somos parte da aldeia global. Então por que continuamos acreditando nas mentiras contra Cuba? Se a ilha é mesmo um lugar insignificante, por que desperta tanta ira em uns e outros? Resolvi escrever sobre Cuba depois de ler um texto escrito pelo Carlos Eduardo Moura no blog do Semana 3. Eu colaborei com a revista desde seu aparecimento e agradeço ao Carlos pelo espaço, assim como o parabenizo pela iniciativa de jogar na praça uma publicação independente e de qualidade inquestionável. Mas não posso também de deixar registrada a minha indignação contra certos artigos publicados. Mascarados de informativos, apenas revelam um ponto de vista, nitidamente conservador. Até aí nenhum problema, acho que as pessoas têm o direito de defender a ideologia que lhes parecer apropriada. Desde que não mintam, não distorçam, não confundam ainda mais o leitor já tão confundido, tão suscetível à notícias plantadas. Seria necessário discutir o significado da palavra ditadura para começar um debate razoável, mas quero crer que Moura e os demais jornalistas que se indispõem contra Cuba são sabedores de seu sentido profundo. O que leva alguém a escrever sobre Cuba? Salvo exceções, para denunciar. Ou se escreve para denunciar os efeitos criminosos do bloqueio econômico dos Estados Unidos contra a ilha, ou para denunciar os desmandos do "ditador Fidel Castro" contra seu próprio povo. O curioso é que escrevem assim: "em Cuba não se critica o governo, senão vai para o paredão". Escrevem, mas não conseguem provar. Não provam porque simplesmente não é assim que as coisas funcionam. A pena de morte existe? Sim! E eu sou radicalmente contra! Sou um humanista, de tal modo que condeno a pena de morte cubana, a chinesa, a estadunidense ou qualquer outra. Mas há que se dizer a verdade: em Cuba ninguém morre por pensar diferente do governo. O último criminoso condenado à morte tombou em 2002, porque matou uma criança numa tentativa de assalto. Antes dele, um general envolvido com tráfico de drogas dentro do Exército, em 1998. Apenas neste janeiro morreram, nas cadeiras elétricas do Texas, mais prisioneiros do que em Cuba nos últimos 7 anos. Mas isto ninguém diz. E também não vem ao caso, porque eu não quero falar de morte, mas de vida cubana. Por que ainda se desconfia tanto de Cuba? O que parece ter incomodado o colunista do Semana 3 é o fato de Cuba ainda insistir em denunciar o "imperialismo". Na verdade, a birra não é exatamente contra o que Fidel diz, mas contra a idéia que ele representa em escala mundial. Como se o imperialismo não existisse, Moura ironiza o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, por sua aproximação com idéias que lhe parecem "idiotas e rasteiras". Eu gostaria de saber o que o jornalista entende por "imperialismo" e, mais, como conseguiria sustentar a afirmação de que não existe "imperialismo" depois do fim da União Soviética? Ele não está sozinho. Apenas peguei seu artigo como bode expiatório de uma série de outros artigos veiculados em mídias realmente influentes e ainda mais prejudiciais ao bom senso do leitor. A prática de minimizar, difamar e ironizar o pensamento contrário ao modelo capitalista de gestão é cada vez mais freqüente na imprensa. O que nos leva a crer que Fidel, Chavez e Evo Morales não são assim tão insignificantes como eles dizem. Se o fossem, não haveria razão para tanto ódio. Visitei Cuba. Pelo menos mais dois integrantes deste blog visitaram Cuba também: o André e o Ricardo, que eu sei. Podem ter tido experiências diferentes da minha, mas garanto que também puderam constatar que muita mentira se publica sobre Cuba. Mentiras, mentiras, mentiras que não acabam mais. E vindas de gente que nunca pisou na ilha e nem nunca buscou saber a verdade acerca das informações que consome. Tenho esperança de que alguém leia este texto até o fim, apesar de ele estar grande demais e um pouco cansativo. Eu mesmo não queria estar escrevendo sobre isto agora, mas nós não podemos continuar aceitando ingenuamente que mentiras continuem sendo publicadas sobre Cuba ou sobre qualquer outro assunto que peça o mínimo de respeito para com os fatos, com os leitores, com o tema abordado. Sempre que uma mentira for publicada, temos de rebatê-la, este é nosso dever como homens de imprensa. E se este não for o dever da imprensa, é porque alguma coisa de muito errada está acontecendo com ela. Cuba não é o paraíso e nem o inferno. O bloqueio econômico dos Estados Unidos maltrata o povo cubano há cerca de 45 anos. Mas Moura, indiferente aos problemas sociais que o boicote acarreta na ilha, ainda insinua que não se trata de uma medida "injusta" e "criminosa". O que os jornalistas entendem por bloqueio econômico? Não sabem que um país bloqueado é um país que simplesmente não pode manter relações comerciais com nenhum outro? E que isto não é uma mera decisão de gabinete, mas que implica inclusive uma ameaça militar permanente? E que este bloqueio em escala mundial, coordenado pelos Estados Unidos, faz com que em Cuba sofra a carência de medicamentos e alimentação? Carências que levam à morte crianças e velhos que poderiam se curar facilmente se Cuba pudesse importar determinados medicamentos que a ilha não é capaz de fabricar. E qual foi o grande pecado que Cuba cometeu para merecer um bloqueio que não lhe permite desenvolver sua economia e ser um país aberto para o mundo, como qualquer outro? Talvez tenha sido o pecado de não dançar conforme a música, de ter escolhido para si um outro destino, um outro caminho. Os jornalistas que condenam a presença do fuzil na história de Cuba são os mesmos que votaram NÃO pelo desarmamento no Brasil. A hipocrisia e a arrogância da imprensa capitalista é incapaz de aceitar o fato de que pode haver outra realidade. Eles não aceitam que alguém possa se engajar numa causa sem ganhar nada em troca. Porque, para eles, não existe vida fora do lucro, não existe idealismo que resista à uma boa oferta. O homem que não pensa em seu benefício próprio é otário ou mentiroso - é assim que eles pensam. Por isso, a solidariedade de Cuba é contestada, mas nunca nenhum jornalista da grande imprensa brasileira se preocupou em acompanhar de perto os trabalhos de solidariedade internacionalista do povo cubano. Basta citar que, em 1992, Niterói viveu a pior epidemia de febre amarela da história recente do Brasil. Morria muita gente por dia, muita mesmo. Não tenho esses números comigo, mas está tudo na internet e nos livros. Leiam o livro 1992, de Martha Rojas. Niterói estava fadada à morte, nem mesmo o Governo Brasileiro conseguia resolver o problema. E Cuba, no auge de sua pior crise econômica gerada pelo bloqueio, enviou para o Brasil quantos médicos foi possível. E boa parte de sua reserva de vacinas. Os voluntários cubanos da medicina precisaram de exatos 30 dias para controlar e erradicar a febre amarela do Rio de Janeiro. O Brasil quis pagar. Cuba não aceitou um só centavo. Pediu apenas que se levantasse, em Niterói, uma praça e um busto para José Martí, o maior poeta cubano. A praça está lá, para quem quiser visitá-la. Não há uma só empresa cubana em Niterói. Em nenhum momento foi solicitado qualquer tipo de favor ou benefício. O ato de solidariedade internacional não mereceu uma só reportagem nos jornais, limitando-se à pequenas notas e pouca ou nenhuma referência sobre a gratuidade do gesto. As mentiras contra Cuba, ao contrário, proliferam: "ninguém pode sair do país". Como assim? Então aquela amiga que veio me visitar no ano passado não era cubana? Não embarcou de volta no mesmo avião que a trouxe? Teria eu tido uma alucinação, teria sonhado com sua vinda? Se o cubano não sai, é porque não tem dinheiro para sair e só consegue viajar quem junta algum dinheiro, geralmente trabalhando em empresas com capital estrangeiro investido (que existem na ilha, embora digam que não). O bloqueio torna a vida muito difícil. Está mais do que provado, vide relatórios anuais da ONU, que o bloqueio estadunidense faz com que cerca de 6 bilhões de dólares deixem de entrar em Cuba todos os anos. O bloqueio atrasa o desenvolvimento industrial e tecnológico, além de comprometer setores como a saúde e a educação. E, ainda assim, Cuba, milagrosamente (?!) consegue se manter com os melhores índices do mundo nestes dois últimos quesitos. Qual a razão? A explicação é simples: Cuba conta com um povo culto e socialista. Não passa pela cabeça desses jornalistas que o povo cubano possa querer o socialismo? Como é que obtém informações acerca da oposição na ilha? Que jornais e sites eles lêem? Em quem acreditam? São perguntas que me faço quando leio tanta bobagem escrita por aí. E me recuso, veementemente, a acreditar que não seja outra coisa senão má fé. Porque não é possível tanta desinformação. Não é preciso ler os órgãos oficiais da imprensa cubana - que também são parciais e superdimensionam as conquistas da revolução. Há livros de historiadores neutros e sérios, que podem contar a história real do bloqueio. Tendo a oportunidade, vá pessoalmente para Cuba e conheça tudo o que puder. Vá aos centros de informática gratuitos, que estão em toda parte de Havana, e tirem fotos das crianças e jovens navegando em sites de todo o mundo. Ninguém vai te proibir de fotografar, nem de entrar no site que você quiser. Da próxima vez que o leitor topar com uma notícia sobre Cuba, preste atenção: ela será sempre contada sob a ótica que interessa ao capital. Assim, é sempre o cubano que foge da ilha porque lhe é proibido sair; nunca será dito para você que o cubano se lança ao mar porque ele é proibido de entrar legalmente nos EUA e que ele tem parentes vivendo lá e que a dificuldade financeira o faz arriscar a vida para tentar um subemprego no país vizinho. O cubano não foge de ditadura nenhuma, ele apenas vai em busca de dólares e a única maneira é entrar ilegalmente, pelo mar, em Miami. Só assim será recebido como um verdadeiro "refugiado" e será apresentado à mídia como um "fugitivo do comunismo". Trata-se de uma imigração econômica, não política. Todos os dias brasileiros também chegam ilegalmente à Miami. Mas brasileiros não são tratados como exilados políticos. A maioria esmagadora dos cubanos, porém, não querem dólares, nem piscina, nem carros do ano. É esta maioria que ajuda a construir, todos os dias, o país mais solidário e culto que eu já conheci. Eu poderia falar muito mais sobre a ilha, mas não posso me estender mais. Deixo com vocês a pergunta que nunca sai de moda: por que Cuba ainda incomoda tanta gente?
Entendendo o Bloqueio
O bloqueio total do comércio entre EUA e Cuba foi decretado mediante ordem executiva do presidente John F. Kennedy, no dia 3 de fevereiro de 1962, como resposta à uma série de medidas implantadas pela revolução cubana que visavam tornar a ilha menos dependente do capital norte-americano.
O bloqueio econômico patrocinado pelo governo dos Estados Unidos contra Cuba já causou um prejuízo de US$ 82 bilhões para o país, segundo informou o Relatório Anual da ONU. Isto explica, em parte, por que em Cuba os produtos mais básicos têm de ser racionados.
Além do alto prejuízo econômico, o relatório denuncia que a política da Casa Branca viola as regras do direito internacional. “Essa política, profundamente isolada, é rejeitada a cada ano pela Assembléia Geral das Nações Unidas e tem uma forte oposição interna nos EUA”, assinala o documento.
Em função do bloqueio, Cuba não pode, entre outras restrições, exportar nenhum produto para o mercado norte-americano, nem receber turistas vindos dos EUA. Além disso, não tem acesso a créditos e nem pode utilizar o dólar em suas transações com o exterior. Os navios e aviões cubanos estão proibidos de tocar portos e aeroportos dos EUA. O bloqueio impede ainda importações de subsidiárias norte-americanas instaladas em outros países e sanciona investimentos estrangeiros em Cuba. Cerca de 91% das importações cubanas procedentes de subsidiárias norte-americanas em outros países é constituído por alimentos e medicamentos.
Essa lei também impõe severas proibições à navegação marítima desde e para Cuba. A partir dela, o navio de um país que atraca em um porto cubano, não pode entrar em um porto dos EUA antes de seis meses e mediante uma permissão especial. Ela estabeleceu a perseguição e sanção para atuais e potenciais investidores estrangeiros em Cuba, autorizando ainda o financiamento de ações hostis contra a ilha.
O ódio contra Chávez
É assim que o governo dos EUA espera seguir asfixiando economicamente a ilha para atingir seu objetivo máximo: “levar a liberdade aos cubanos”. Os números do relatório ajudam a entender também a crescente irritação da Casa Branca com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que vem procurando ajudar Cuba a diminuir os impactos negativos do bloqueio. Em sua cruzada para destruir a revolução cubana, os EUA não contavam com mais essa pedra no sapato.

7 Comments:
Li, Bruno. Do começo ao fim.
Acompanhei o desabafo, a fundamentação, os complementos.
E li tudo novamente... Concordo com você!
Mas percebi que falamos muitas vezes pra nós mesmos.
Quem mais escuta?
Onde chega nossa voz?
Beijos.
Concordo com a Márica. Cuba é meu sonho, choro por ela. Mas uma pergunta me incomoda: como está o povo de Cuba, sofrendo com essa carência material? Como obrigar as famílias a uma vida racionada dessas? Ainda há espaço para luta? Às vezes penso que estamos mortos, Bruno, estamos mortos.
O comentário acima é do André Montanhér.
André, o homem se adapta sempre. E ainda mais quando tem um ideal que o motiva. O socialismo é uma realidade na vida do povo cubano e isto faz toda a diferença. Abraços. Bruno.
Respondendo, em parte, a pergunta do André...
Há um mês aproximadamente, quando voltei de Cuba, Erik, um cubano de Caimito (cidade próxima à Havana, onde fica o acampamento internacional Julio Mella) me disse: "Gostaria muito de ter um tênis adidas, é bonito...mas não vou fazer uma revolução por ele. Pela educação da minha filha eu faço". Esse foi o mais emblemático dos comentários sobre a carência material dos cubanos. A maioria das pessoas com quem conversei em Havana, Holguín, Santa Clara, Morón, Guantánamo, Caimito e outras cidades por que passei em 26 dias de viagem, pensa como Erik. A maioria aprendeu a pensar por si próprio (filosofia e marxismo sãodisciplinas obrigatórias nas universidades até para quem faz matemática !!!) e justamente por isso os cubanos são críticos e questionam o governo. Mesmo os opositores reconhecem os feitos - e que feitos ! - da revolução e admitem que é muito difícil mudar por inteiro a mentalidade individualista de séculos em menos de 50 anos.
A insatisfação me pareceu maior em Havana, onde o constraste entre cubanos que trabalham com turismo (que acabam ganhando gorjetas em CUCs) e o resto da população é bem evidente. No interior, há mais apoio à revolução, pelo que pude notar...
Abraços a todos.
PS: Bruno, o problema em Niterói não foi dengue? Porque hoje comprei um livro no Berinjela chamado "Cuba 1992: o ano mais duro da revolução" e o prefácio foi escrito pelo então prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, que conta a mesma história que você, só que em vez de febre amarela, ele diz dengue. Eu não me lembro. Nem sabia disso. Ouvi falar disso em Cuba: um segurança de um hotel me contou.
Olá, li seu texto mais ainda tenho uma dúvida. Sou quase uma ignorante sobre o assunto, por isso não me interperte mal a pergunta. É verdade que os cubanos não podem decidir sair do seu país para morar em outro? Por quê?
Oi,meu nome é Edilaine e estou precisando de ajuda.Sou estudante de serviço social e tenho que fazer um pesquisa sobre o sistema previdenciário de Cuba.Será que voce pode me indicar algum título que trata desse assunto?Obrugada.
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