Geraldo Magela Matias
Não sou especialista em mercado imobiliário. Também não sou geógrafo ou urbanista. Mas li num jornal impresso que a metrópole Campinas está crescendo para o alto, verticalmente. Talvez o Homem-Aranha fique satisfeito, aquele super-herói sarcástico, repórter fotográfico, gênio da ciência, mas nunca foi capaz de conquistar a mulher amada e nem levar muita grana para casa. Cabe aqui ficção, sim. Nada cresce para o céu sem ter uma base, uma pedra ângular que dê segurança à estrutura que rasga o imaginário azul. Lembro a Torre de Babel, construção que desafiou o Deus judaico-cristão por tentar invadir os átrios sagrados. Deus revidou fazendo os homens se confundirem com a instituição de diversos dialetos, línguas e idiomas. Cessou a unidade pecadora com a polifonia desarticuladora.
E novamente os homens, aqui em Campinas, repetem construções para cima, em direção aos céus. Mas embaixo, no topo dessas construções que recebem o nome condomínio as coisas não refletem a paz celestial. Apartamentos apertados, construções que não levam o mínimo trato profissional competente quanto à acústica, ausência de áreas de lazer e proximidade entre vizinhos. Dentro dos condomínios brota a figura do síndico, uma autoridade que tem por missão zelar pela manutenção do silêncio depois das 22h. É ele quem decide tudo. Decide assim porque brasileiro não sabe viver em comunidade, principalmente numa sociedade de massa. Alguns chegam ao absurdo de afirmarem-se Estado dentro desses espaços. Porteiros comentam a vida alheia, sabem de quem os côndomínos recebem correspondências; conheço um síndico que virou corretor de imóveis da noite para o dia. Além de perceber mensalmente seu salário de síndico, usa o condômínio para fazer corretagem e colocar para dentro um perfil de morador: casais sem filhos ou solteiros trabalhadores. O automóvel é o principal vilão: luzes durante a noite inteira iluminando-os, brigas intermináveis entre seus zelosos donos. Passou a ser o único lugar seguro. Às vezes fico observando as ruas nos bairros depois das 22h. Não se vê muito movimento. Viram desertos, áreas de batalhas entre Polícia e bandidagem. A instituição de uma moral, de uma sub-constituição dentro dos condomínios é clara, ou melhor, uma sub-cultura. Ninguém conhece ninguém. Ninguém fala a mesma língua. E no pequeno espaço chamado condomínio é perceptível os avanços da corrupção: superfaturamento, negociação espúria entre donos de garagem e síndico, até mesmo, fiquei sabendo, grampo telefônico para certificarem se o "sujeito estranho" que começou a morar no prédio é mal caráter ou não. A população desses espaços não gostam de participar de reuniões, não estão nem aí quanto aos gastos e administração do dinheiro resultante das taxas pagas aos cofres do sub-Estado.
Mas não vou ousar escrever sobre Aeroporto Industrial, ocupação irregular do solo, falta de infra-estrutura, financiamento público de moradia, déficit habitacional. O que eu queria, de verdade, era pegar um vôo para uma praia distante e poder gritar, pular e viver em paz como se vive um céu: com mar azul e a areia branca e uma casa com quintal. Sem saber que tem gente feliz pelo fato de a insegurança pública ser comemorada pelos donos de empresas de segurança privada que ganham dinheiros a rodo nesses condomínios. Curiosamente, dizem as más línguas, são funcionários públicos responsáveis pela segurança pública.

2 Comments:
Geraldo.
Teu lamento de cidade grande me fez desejar um espaço maior, onde pudesse me espreguiçar. Braços lançados ao vento, pés que se perdem nos caminhos dos sertões. O Brasil é imenso, tanto, tanto, tanto onde pisar...
Desculpa se minha poesia vai pra longe da tua praia. Mas é lá numa casinha que parece meio viva, como uma árvore, retorcida pelo sol, com um quintal vastíssimo, sem muro nem portão, que te eu vejo.
Olha o horizonte. Vê quanto chão... E quanto ainda a dividir, a doar a aprender com o pequeno sertanejo.
Estou ouvindo aquela música...
“Eu quase não saio, eu quase não tenho amigos.
Eu quase que não consigo, viver na cidade sem me ver contrariado.”
Geraldo,
E eu queria ter um pedaço de chão que fosse meu. Pra cima ou para os lados, de qualquer jeito porque eu, taurina que sou, preciso de ter algo que eu diga meu, paraque eu possa morrer ali e ter as minhas cinzas jogadas de baixo de algum pé de árvore.
Postar um comentário
<< Home