
A Eternidade
Bruno Ribeiro
Eu aprendi a ler muito cedo: aos cinco anos de idade, com os gibis do Lee Flak. À ele devo meu gosto pela literatura e, desconfio, pelo jornalismo. Assim como a gente nunca esquece um bom amigo, nunca me esqueci das histórias do Mandrake e do Fantasma, na época editados pela RGE. Eu tinha a coleção completa! Depois de uma mudança de casa, muitos desses gibis se perderam e até hoje fazem uma falta danada. Enquanto escrevo agora sou capaz de sentir o cheiro inconfundível das páginas daqueles gibis, que ainda não eram feitas com papel de qualidade, como hoje. São recordações tão fortes que me levam a refletir sobre a influência exercida pelos quadrinhos na vida de quem aprendeu a ler soletrando o nome do herói preferido: Fan-tas-ma.
Os adultos tendem a menosprezar seu passado, querendo crer que os mitos da infância são menos importantes do que as suas referências atuais. Não sou desses; para mim, o Fantasma nunca deixou de ter o meu reconhecimento: ensinou-me a ler e a odiar os exploradores, sendo tão importante na minha formação intelectual e moral quanto os filósofos que fui ler anos depois, na universidade. Um dia alguém me perguntou qual era a recordação mais antiga que eu tinha da infância e não precisei pensar muito para responder: as histórias do Fantasma. Antes mesmo que eu soubesse ler, folheava os gibis do mascarado com tal fascínio que nenhum programa de TV era capaz de me ganhar.
Muitos têm a capacidade de guardar de cabeça passagens dos livros que marcaram suas vidas. E as citam, na primeira oportunidade, lembrando que Gregor Samsa acordou certa manhã, transformado num gigantesco inseto, ou que Dom Quixote se arremeteu contra os moinhos de vento, julgando se tratar de gigantes. Gosto de tudo isso também, mas é sempre a história do Fantasma que me vêm à mente quando penso numa passagem inesquecível: "Há 400 anos, um navio de passeio foi atacado por piratas, na costa da Índia. Todos os seus tripulantes foram saqueados e mortos, com exceção do jovem Christofer, que conseguiu escapar à nado e alcançar a selva. Nesse dia ele fez um juramento a si mesmo: dedicar sua vida e a de seus descendentes ao combate ao crime em todas as suas formas, sobretudo crimes de cobiça e opressão. Desde então sua luta tem se transmitido ao longo dos séculos".
Passados quase 25 anos de meu primeiro contato com os gibis do Fantasma, eu consigo enxergar o que sempre me interessou neste personagem: o fato de ele ser eterno, mesmo sendo mortal. Ao deixar sempre ao filho mais velho o legado de sua luta, o "espírito que anda" descobriu a única maneira que o homem dispõe de não morrer: passar adiante o bastão. Há 400 anos transmitindo seus ideais de justiça e paz pelas selvas do mundo, o Fantasma é, de certa forma, o homem comum lutando por uma causa coletiva. É a prova de que heróis não precisam – nem mesmo na ficção – de superpoderes para serem respeitados.

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