Domingo, Fevereiro 05, 2006

LIMBO

Geraldo Magela Matias


A indagação mais inteligente, no final da ditadura militar, foi lançada por Elis Regina: "e daí?". A resposta lhe foi dada pelo pessoal da esquerda que chegou, depois de uma marcha em direção ao planalto central do país, surfando na onda vermelha do PCdoB, PSB e PT. Há muito tempo deixei de julgar, escolher e avaliar usando a ditadura como referência: nem tudo que a ditadura proibiu era bom. Nem mesmo devemos criar mitos eternos - isso é tarefa para religiosos fanáticos e fundamentalistas. Nem tão louvável é sair bombardeando fenômenos e movimentos em diversas áreas da vida simplesmente porque sou um clichê de niilismo ambulante.
Lembro-me quando Fernando Henrique era considerado um intelectual que oferecia riscos ao sistema capitalista selvagem implantado no Brasil. Houve apenas um marcatismo paranóico muito amplo, implantado a ferro e fogo. E não aconselho ninguém cair nessa onda "verde e amarela" do patriotismo positivista. Não vou babar a gosma da ingenuidade da fidelidade ao "socialismo" do PT. Vou até concordar em alguns pontos com o Diego Mainardi e, por discordar, não vou sair por aí exigindo sua cabeça. Não vou defender piamente que Fidel nunca ousou abandonar Che nas matas bolivianas, mas não vou me dar ao luxo do simplismo ideológico de direita acusando o socialismo real de engendrar planos tenebrosos de genocídios. Tanto capitalismo como socialismo real mataram milhões de pessoas.
Em verdade, necessitamos respirar. Tomar um ar. Tudo necessita ser debatido dentro da liberdade real de expressão. Por exemplo, acabaram de deletar um texto meu do blog, o Mineirotauro, por isso não vou sair por aí cuspindo fogos e pregos. Tudo bem. Típico de gente distraída. Pode ter sido por mero engano. Mas, parafraseando o maior ídolo do meu amigo André, Bob Dylan: "nenhum texto deletado deterá o mundo".
P.S.: gosto de qualquer marca de cerveja.


4 Comments:

At 6:37 AM, Blogger Márcia Nestardo said...

Pois é!
Eu tinha gostado do "Mineirotauro" e quando vim comentar... cadê.
Quanto a liberdade pra debater, eu abraço a causa. Acredito que há momentos em que só o radicalismo e a indignação absoluta podem tirar a bunda da cadeira, mas não na troca de idéias.
Estou no mundo pra aprender e, longe de ficar em cima do muro, prefiro ouvir e repensar minhas opiniões, sempre que tropeço num bom debate. Às vezes saio revigorada só por entender o outro lado, mesmo que não interfira no que eu penso.
Gosto de gente que pensa.
É por aí...

 
At 8:34 AM, Blogger Marina Franco said...

Gostei, Geraldo, as concepções políticas hoje estão muito além dos "ismos"...não há mais como reduzir o capitalismo, não há mais como ser tão maniqueísta ("o Fidel é o bonzinho"?). Para mim, todas as ditaduras são equivocadas, o autoritarismo é inescrupuloso, mesmo que aparentemente lute por justiça social.

Como agir então, em meio à tantas frustrações políticas, tanto desgosto com a esquerda brasileira, tanta falta de coneciência?

Não sei, continuo achando que a arte, a literatura, o conhecimento, a educação, ainda são a melhor forma de se fazer uma verdadeira revolução. Mas pode ser mais uma crença que cairá em desuso daqui a alguns anos.

por sinal: mudaram o layout do blog???

 
At 11:10 AM, Anonymous Bruno Ribeiro said...

Oi gente, primeiro queria dizer que ninguém deletou o texto de ninguém. Como eu já falei para o Geraldo, talvez tenha ocorrido algum problema na configuração do blog, no momento em que eu fiz a alteração do layout. Isto aconteceu também no meu outro blog, o de poesia. Não tenho certeza se foi isto que aconteceu, mas não acredito que um de nós tenha deletado o texto do Geraldo, até porque não havia nada no texto que justificasse tal atitude. E nem que tivesse algo no texto seria justificável. Marina, quanto a chamar Fidel de "bonzinho": não creio que nós, comunistas, acreditamos na bondade ou na maldade, isto seria reduzir demais as coisas. Mas há muita mentira dita sobre Cuba, que as pessoas acabam assimilando como verdades irrefutáveis. Eu conheço o país, já estive lá, em casa de cubanos. E posso afirmar que o dito "controle social" ou a suposta "falta de liberdade" são muito menos identificáveis do que a gente imagina. A vida lá acontece como em qualquer lugar do mundo, ninguém é preso e assassinado por falar mal do governo etc. Mas não vou discorrer sobre isso, há um texto meu abaixo, falando sobre o que eu penso do assunto. Beijáo!

 
At 3:07 AM, Blogger Marina Franco said...

Li seu texto sobre Cuba, Bruno, e gostei muito. Também acho reducionismo tentar analisar uma situação social de maneira maniqueísta, aliás, foi isso mesmo que quis dizer no comentário: não há como reduzir o Fidel a isto ou aquilo (o bonzinho, foi um exemplo disso). A situação lá é bem mais ampla e complexa do que este tipo de análise, entendo eu, e seu texto, apesar de elogiar muito a sociedade e a vida cubana, consegue mostrar isso de fora.

Mas mesmo assim, mesmo admirando a luta e coragem dos cubanos em não se entregar ao montro do capitalismo, continuo sendo contra qualquer forma de ditadura e autoritarismo, seja do Fidel, do Bush ou de qualquer outro.

 

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